COLECÇÃO NOVELA GRÁFICA IV – 9º E 10º VOLUMES: “GENTE DE DUBLIN” e “O JOGADOR DE XADREZ”

 Artigos de João Miguel Lameiras, reproduzidos do jornal Público, edições de 28 de Julho e 4 de Agosto de 2018. Dois dos melhores volumes desta colecção, cujas raízes literárias e biográficas se fundem com um grafismo sedutor (de Alfonso Zapico e David Sala, respectivamente), estão agora ao alcance dos leitores que se revêm no conceito de “romance ilustrado” ou “literatura gráfica”, herdado dos famosos Classics Illustrated.

Página da novela “Gente de Dublin”

Página da novela  “O Jogador de Xadrez”

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O REGRESSO DE BEOWULF

Sem grande aparato, mas posicionando-se já como uma válida aposta no efervescente meio editorial português de Banda Desenhada, a novel editora Ala dos Livros anuncia o seu 1º lançamento, aproveitando a vinda ao próximo COMIC CON, a realizar em Lisboa, nos dias 6 a 9 de Setembro, do autor galego David Rubín.

Trata-se de um dos mais destacados elementos da pujante escola contemporânea espanhola, que tem dado cartas na BD mundial e começa também a ser devidamente apreciada pelos leitores portugueses. Na sua estreia entre nós, David Rubín apresenta-se com uma obra de ressonâncias épicas, magnificamente ilustrada e colorida, cujas linhas mestras se inspiram num dos mais prodigiosos heróis da mitologia escandinava: Beowulf, o exterminador de monstros e outras criaturas malignas que povoam as fantásticas e milenares lendas dos povos nórdicos.

Aliás, é tal, ainda hoje, a celebridade de Beowulf que já foi foi objecto de várias versões cinematográficas, a mais recente (2007) realizada por Robert Zemeckis, com uma panóplia de efeitos especiais que rivaliza com as mais ambiciosas produções do género [imagem supra]. Nos anos 1970, Beowulf foi tema, também, de revistas de BD, das quais se destaca um título editado pela DC Comics, com desenhos de Ricardo Villamonte; outra artística versão é a do mestre italiano Franco Caprioli, publicada na revista inglesa Look and Learn e, em Portugal, no Mundo de Aventuras (1975).

A obra de David Rubín, com um cunho de acentuada modernidade, é digna de ombrear com estas criações, não só pela concepção plástica e narrativa, como pelo vigor formal de um estilo que cativa irresistivelmente o olhar dos leitores, tendo-lhe valido a nomeação para os cobiçados Prémios Eisner do corrente ano.

Nota do Editor: SANTIAGO GARCÍA e DAVID RUBÍN uniram os seus talentos para recriar o mito de Beowulf, o qual, inspirado num poema épico com o mesmo título, sobreviveu durante mais de mil anos e se tornou um dos pilares da literatura inglesa, tendo influenciado várias gerações de autores, desde J. R. R. Tolkien e Seamus Heaney a inúmeros argumentistas de Hollywood.

O poema narra as aventuras de BEOWULF, um herói escandinavo com força sobre-humana, por terras que actualmente pertencem à Dinamarca e à Suécia. Um monstro, Grendel, atemoriza durante mais de uma década o reino dos Daneses, devorando homens e mulheres até à chegada de Beowulf, que se propõe salvá-los.

A versão que García e Rubín nos apresentam segue fielmente o argumento e a estrutura em três actos do texto original, não pretendendo ser revisionista, irónica ou pós-moderna, mas captando o ambiente e os detalhes mais importantes, transmitindo a poderosa ressonância épica e melancólica dos versos originais, através dos recursos formais da banda desenhada contemporânea.

Os autores pegam, pois, numa história milenar, dando-lhe uma perspectiva moderna, mas mantendo-a respeitosamente fiel à fonte original.

“MOSKA” – O GATO DE CARLOS ROQUE – 2

Aqui ficam mais duas tiras de uma criação inédita de Carlos Roque: o gato Moska, alter-ego de um felino que foi seu companheiro inseparável (e de Monique Roque) durante muitos anos, viajando entre Portugal e a Bélgica como um turista inveterado. Lembramos-nos bem dele, eu e a Catherine, e não há dúvida de que era o gato mais simpático e sociável que conhecemos.

Só lhe faltava falar, como nos desenhos que inspirou ao seu talentoso amigo… com quem voltou, certamente, a juntar-se no paraíso!   Em breve: mais tiradas “filosóficas” do Moska, que se gaba de já ter alguns amigos e admiradores na Internet.

COLECÇÃO NOVELA GRÁFICA IV – 8º VOLUME: “TATUAGEM” (HERNÁN MIGOYA E BARTOLOMÉ SEGUÍ)

Artigo de João Miguel Lameiras, reproduzido do jornal Público, edição de 21 de Julho de 2018. Um dos melhores trabalhos de um destacado autor da moderna BD espanhola, baseado numa série policial de grande sucesso, do famoso escritor Manuel Vázquez Montalbán… ou mais um caso em que a criação literária e a narração figurativa se fundem num todo perfeito, graças ao talento de Hernán Migoya e Bartolomé Seguí.

MEMÓRIAS À VOLTA DAS HISTÓRIAS EM QUADRINHOS (POR JOSÉ RUY) – 3

Depois da interrupção forçada da publicação desta história [«O Reino Proibido»] em O Mosquito, como contei nos artigos anteriores, entreguei em mão ao Raul Correia as duas últimas pranchas, que ele fez publicar a partir da semana seguinte. Mas algo se modificara no jornal.

Raul Correia tinha decidido alterar mais uma vez o formato, desdobrando a folha de máquina e, desta maneira, ficando com metade das páginas, pois o formato de cada uma, agora, ocupava duas das anteriores.

Como eu sempre fiz os originais ao dobro, ou seja, quatro vezes o tamanho da publicação, para o novo formato ainda reduziu um pouco.

As duas últimas páginas de «O Reino Proibido» (O Mosquito nºs 1385 e 1386)

Como este final da narrativa saiu nas páginas do interior do jornal, não levaram cor. O rapaz que me servia de modelo para essa história era um conhecido do Coelho, que pertencia a uma corporação de bombeiros. À noite, ia ao nosso ateliê, na Calçada do Sacramento, para posar.

Mostro, a seguir, alguns estudos para as figuras da última página [reproduzida acima].Capa d’O Mosquito nº 1386, no novo formato 30×22 cm, onde terminou «O Reino Proibido», única história de José Ruy publicada nesta revista

O Eduardo Teixeira Coelho voltara a colaborar nas páginas do jornal, com uma das suas melhores fases, ilustrando os contos de Eça de Queirós. Dois números a seguir a este, no 1388, iniciou ele o «São Cristóvão», que ficaria incompleto pela interrupção da publicação, ao fim de dezassete anos de vida, não conseguindo resistir à poderosa concorrência do Cava- leiro Andante e do Mundo de Aventuras. Faltou-lhe o «dedo mágico» do Tiotónio para reverter a situação, mas este encontrava- -se no Brasil, entregue a outras actividades.

A minha, além da paixão pela ilustração, era a arte gráfica, e foi por essa via que fui convidado a ingressar na equipa da «roto- gravura» (gravura em cobre) do conceituado matutino Diário de Notícias.

Estava em projecto um semanário de actualidades, que se chamaria Esfera, dirigido pelo Leitão de Barros. O Coelho seria o colaborador artístico principal e eu teria a função de paginar, desenhar cabeçalhos e algumas ilustrações; e como faltavam técnicos disponíveis para o processo de «rotogravura», acharam que a minha experiência no «offset» daria para me adaptar na montagem e retoque dos positivos fotográficos.

Assim foi e contrataram-me logo nessa altura, para quando a revista saísse estar logo operacional. Afinal, a revista não chegou a publicar-se, pois era necessária uma rotativa de «rotogravura» só para essa publicação e a administração da empresa tentava resolver a questão só com uma máquina de impressão «Mailander», à folha, onde imprimiam parte do Cavaleiro Andante, e que pela sua lentidão não garantia a cadência necessária. Foi o próprio Leitão de Barros quem os alertou e rescindiu o contrato.

E eu fiquei durante seis anos, acabando por me especializar no processo. Mas continuava a fazer histórias em quadrinhos.

No próximo artigo: «A minha primeira história no Cavaleiro Andante»

COLECÇÃO NOVELA GRÁFICA IV – 7º VOLUME: “DESTEMIDAS” (PÉNÉLOPE BAGIEU)

Artigo de João Miguel Lameiras, reproduzido do jornal Público, edição de 14/07/2018. Destemidas é um curioso conjunto de biografias de mulheres voluntariosas (mas pouco conhecidas ou recordadas), e que merecem também um lugar na História, descritas com o estilo simples mas eficaz de Pénélope Bagieu que evoca a “linha clara” e o traço “hergeneano” que influenciou, nos anos 1950/60, autores como Marcello de Moraes, colaborador do Camarada e do Diabrete. Ficamos à espera do 2º volume.

JOSÉ GARCÊS, O MESTRE DAS ARTES

Muitas décadas depois da sua memorável estreia nas páginas d’O Mosquito (1946), José Garcês (que comemora hoje, dia 23 de Julho, mais um aniversário natalício) publicou em 2016 dois trabalhos de notável erudição, concretizando projectos antigos que o venerando mestre conseguiu ainda levar a cabo: uma minuciosa e apaixonante biografia de Santo António de Lisboa, dada à estampa com a chancela da EuroPress (e cujos originais figuram no Museu de Santo António, em Lisboa), e outra excelente monografia sobre um tema em que Garcês se tornou também um dos nossos maiores especialistas: a história das cidades portuguesas. Depois de Porto, Guarda, Ourém, Oliveira do Hospital, Pinhel, Faro e Olhão, foi a vez de Silves, num álbum editado em Outubro de 2016 pela respectiva Câmara Municipal, mas cuja realização remonta a 2009/2010. O “compasso de espera” deveu-se, como sempre, ao excesso de burocracia que domina ainda a nossa administração pública.

Mas valeu a pena o esforço da edilidade para romper essas barreiras, pois o álbum (em edição brochada e cartonada) representa uma preciosa homenagem à antiquíssima urbe algarvia recheada de tradições, revelando inúmeros factos da sua história, com o rigor documental e artístico que é apanágio de José Garcês e a harmonia e beleza gráfica que caracterizam o seu estilo — bem patentes na maravilhosa recriação da célebre “Lenda das Amendoeiras em Flor”, com que se encerra mais um álbum digno inegavelmente de figurar entre as suas melhores obras sobre esta temática.

Com uma carreira intensa e multifacetada, que em 2016 completou 70 anos, oportunamente celebrados pelo Clube Português de Banda Desenhada, em parceria com a Biblioteca Nacional — onde lhe foi prestada calorosa homenagem e esteve patente, de Março a Abril desse ano, uma significativa mostra dos seus trabalhos, nas mais diversas vertentes, como pintor, ilustrador, autor de BD e de construções de armar —, José Garcês considera que, numa história aos quadradinhos, o desenhador «procura transmitir, ao público em geral, uma mensagem visual apoiada num texto, e essa mensagem não terá de ser igual para um adulto ou uma criança com menos de dez anos. Se o conseguir, melhor para todos».

José Garcês e a Presidente da Câmara Municipal de Silves, com o original da capa do álbum publicado em 2016

O seu nome, de marcante importância na BD portuguesa, ficou também associado, para a posteridade, a uma escola e a uma rua da cidade da Amadora — louvável decisão camarária que deveria inspirar outros municípios pelo país fora, no sentido de distinguirem também, no património toponímico, os seus autores com obra de mérito no sector das artes gráficas e, em particular, da Banda Desenhada. Porque Arte e BD são hoje sinónimos de desenvolvimento social e cultural, reconhecidos em toda a parte.

 A imponente construção do Mosteiro da Batalha e outras obras de José Garcês que figuraram na exposição da Biblioteca Nacional, em 2016

Juntando-se aos seus familiares e amigos, e à grande legião dos seus admiradores, espalhados por muitos países, O Gato Alfarrabista Júnior aproveita este ensejo para felicitar Mestre José Garcês pelo seu 90º aniversário, desejando-lhe as maiores felicidades e uma vida o mais longa possível — em que avultam os inúmeros marcos de uma memorável carreira ao serviço da cultura e das artes gráficas portuguesas e a satisfação do dever cumprido para com as gerações dos 7 aos 70 anos (parafraseando outro venerável expoente da BD, o Tintin) que acompanharam, com entusiasmo e admiração, os seus trabalhos.